
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
O trabalho da Filipa
Ela não tinha vendido nada, mas não queria ir para casa pois tinha medo que o pai lhe batesse e na sua casa fazia tanto frio como na rua.
Naquela noite fazia muito, muito frio e ela estava mal agasalhada.
Ela viu uma vaga entre duas casas e meteu-se lá.
Acendeu um fósforo para se aquecer e viu um fogão. Quando ela se esticou para se aquecer ele desapareceu.
Acendeu outro fósforo e viu uma mesa cheia de coisas boas, entre elas, um peru que de repente rebolou pelo chão.O peru ia para ela mas o fósforo entretanto apagou-se.
Ela acendeu outro e apareceu a árvore mais bonita que ela já tinha visto e que tinha velas nas pontas dos ramos, que começaram a subir, a subir...
Ela viu que eram estrelas.
Uma delas caiu e a menina lembrou-se da avó, que já tinha morrido, e que dizia que se uma estrela caísse era por que alguém tinha chegado ao céu.
Ela desejou que a avó estivesse ali e a levasse consigo.
E a menina viu a avó e desatou a acender todos os restantes fósforos para a avó não desaparecer.
Cumpriu-se o desejo da menina; a avozinha levou-a até Deus.
No dia seguinte as pessoas só encontraram o corpo. A alma estava com os Anjos.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Com a azáfama dos últimos dias temos poucos trabalhos para apresentar, mas mesmo assim...
Queria ganhar uma bola de futebol no Natal.
Quando passava nas lojas, ficava encantado com todos aqueles brinquedos. antes de adormecer pedia ao Pai Natal uma bola de futebol.
E no dia da consoada deixou as botas perto da lareira.
Na manhã de Natal, o menino levantou-se a correr e foi direito à lareira, para ver se tinha o seu presente.
ao ver um alinda bola de futebol, ficou cheio de alegria. deu-lhe beijos e alguns remates!
Num dos remates a bola foi parar a uma poça de água.Aflito, foi secá-la na chapa do fogão quente. Não levou muito tempo e a bola derreteu. O menino Ficou muito triste.
Porém, ganhou mais bolas de futebol durante o ano.
Trabalho realizado pelo João
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Biografia de Hans Christian Andersen

Deixou muito cedo a cidade natal para tentar a sorte na capital (Copenhaga), onde gostaria de vir a ser artista. Mas para ser artista era preciso estudar e por isso regressou a Odense para frequentar a escola.
Decide começar a escrever poesia, peças de teatro, livros de viagens. Publicou um livrinho intitulado "Contos de Fadas Contados às Crianças" que o viria a tornar famoso.
Vajou muito e chegou a estar no nosso país.
Escolheu-se o dia 2 de Abril, data do seu nascimento, para o Dia Mundial do Livro Infantil.
A pequena vendedora de fóforos

“Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano.
No frio e na escuridão uma pobre rapariguinha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.
Quando saiu de casa trazia chinelos; mas de nada adiantavam, eram chinelos tão grandes para seus pequenos pezinhos, eram os antigos chinelos de sua mãe.
A menina perdera-os quando escorregara na estrada, onde duas carruagens passaram depressa.
Depois disso caminhou de pés nus , já vermelhos e roxos de frio.
Dentro de um velho avental carregava alguns fósforos, e um punhadinho deles na mão.
Ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e ela não ganhara sequer uma moeda.
Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!
Os flocos de neve cobriam-lhe os longos cabelos, que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.
Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano-Novo.
Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menina sentou-se; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior.
Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão.
O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, excepto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.
As suas mãozinhas estavam duras de frio.
Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!
Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.
Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha…
Que luz maravilhosa!
Com aquela chama acesa a menina imaginava que estava sentada diante de um grande fogão polido.
Como o fogo ardia! Como era confortável!
Mas a pequenina chama apagou-se, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.
Riscou um segundo fósforo.
Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela tornou-se transparente como um véu de gaze, e a menina viu a sala do outro lado. Na mesa estendia-se uma toalha branca como a neve e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar. O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair na sua direcção, com a faca e o garfo espetados no peito!
Então o fósforo apagou-se, deixando à sua frente apenas a parede áspera, húmida e fria.
Acendeu outro fósforo, e viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A pequenina estendeu a mão para os cartões, mas nisto o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela viu-as como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.
“Alguém está a morrer”, pensou a menina, pois sua avó, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela caía, uma alma subia para Deus.
Ela riscou outro fósforo na parede; ele acendeu-se e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.
- Avó! - exclamou a criança.
- Oh! leva-me contigo!
Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar!
Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!
E rapidamente acendeu todos os fósforos, pois queria reter diante da vista a sua querida avó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. A sua avó nunca lhe parecera tão grande e tão bela. Tomou a menina nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações - subindo para Deus.
Mas na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre rapariguinha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.
O sol do novo ano levantou-se sobre o pequeno cadáver.
A criança lá ficou, paralisada, um feixe inteiro de fósforos queimados
- Queria aquecer-se - diziam os passantes.
Porém, ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó e a felicidade que sentia no dia do Ano Novo.”
Hans Chirstian Andersen
O pequeno pinheiro

Lá fora, na floresta, encontrava-se um pequeno e belo Pinheirinho. Nasceu num lugar agradável, onde havia muita luz e muito ar. Estava rodeado de muitas árvores maiores — pinheiros, e abetos também — mas o Pinheirinho ansiava por crescer mais. Não dava valor ao ar fresco, ou às crianças que vinham tagarelar para a floresta e procurar morangos e framboesas. Passavam muitas vezes com um cesto cheio, sentavam-se junto do Pinheirinho e diziam: “Que bonito que é aquele pequenino!”, mas não era nada disso que o Pinheirinho queria ouvir.
No ano seguinte, tinha crescido um rebento novo e no ano que se seguiu cresceu ainda mais. Pode-se sempre dizer, pelo número de anéis que tem no tronco, há quantos anos uma árvore está a crescer.
— Oh, se eu ao menos fosse tão grande como os outros! — suspirava o Pinheirinho. — Então, espalharia os meus ramos para bem longe e, do meu topo, estaria atento a todo o mundo. Os pássaros construiriam ninhos nos meus ramos e, quando o vento soprasse, apenas abanaria, tão orgulhoso como as outras árvores.
No Inverno, quando a neve pousva por todo o lado branca e brilhante, uma lebre veio a correr e saltou por cima do Pinheirinho, o que o pôs zangado. Mas, três Invernos passado, a pequena árvore tinha crescido tanto que a lebre teve de a contornar.
“Oh, crescer, crescer e envelhecer! É, de certeza, a melhor coisa do mundo”, pensou a árvore.
No Outono, os lenhadores vinham sempre para abater algumas das árvores maiores. O Pinheirinho estremeceu de medo, pois as árvores grandes caíam estrondosamente no chão e os ramos eram cortados para que parecessem bastante despidas. Eram colocadas em camiões e levadas dali. “Para onde iriam?”, perguntou-se o Pinheirinho.
Na Primavera, quando as andorinhas e as cegonhas chegaram, a árvore perguntou-lhes:
— Sabem para onde vão as árvores? Viram-nas?
As andorinhas responderam que não, mas a cegonha disse:
— Sim, penso que sim. Vi muitos navios novos, quando deixei o Egipto. Tinham mastros muito altos; penso que eram as árvores. Cheiravam a abetos. Tudo o que posso dizer é que eram altas e imponentes — muito imponentes.
— Quem me dera ser suficientemente grande para ir para o mar! — suspirou o Pinheirinho. — Que tipo de coisa é o mar e a que se assemelha?
— Levaria muito tempo para explicar tudo isso — disse a cegonha. E partiu.
— Devias estar feliz por ainda seres jovem e forte — disseram os raios de Sol. E o vento e a chuva beijaram a árvore, mas o Pinheirinho não queria saber do que eles diziam.
Por altura do Natal, foram cortadas muitas árvores jovens; árvores que eram mais jovens e mais pequenas do que este Pinheirinho impaciente. A estas belas e jovens árvores não foram cortados os ramos quando foram colocadas nos camiões e levadas para fora do bosque.
— Para onde vão? — perguntou o Pinheirinho. — Algumas são muito mais pequenas do que eu. Porque é que não lhes cortaram os ramos? Para onde vão ser levadas?
— Nós sabemos! Nós sabemos! — chilrearam os pardais. — Andamos sempre a espreitar pelas janelas na cidade e, por isso, sabemos para onde vão. Vão ser decoradas da maneira mais bonita que possas imaginar. Olhámos pelas janelas e vimos que eram colocadas em vasos, numa quente sala de estar, e decoradas com as coisas mais bonitas — maçãs douradas, bolos de mel, brinquedos e centenas de velas. — E depois? — perguntou o Pinheirinho, com todos os ramos a tremer. — E depois? O que acontece depois?
— Bem — disse o pardal — só vimos isso, mas era maravilhoso.
— Talvez isso me aconteça um dia! — gritou o Pinheirinho. — Isso ainda era melhor do que viajar pelo mar. Se pelo menos agora fosse Natal! Oh, se ao menos me levassem! Se ao menos estivesse numa sala de estar quente, decorado com coisas bonitas! E depois? O que aconteceria? Devia ser ainda mais maravilhoso. Porque me enfeitariam? Oh, quem me dera que isto me acontecesse!
— Sê feliz aqui connosco — disseram o ar e a luz do Sol. — Sê feliz aqui na floresta.
Mas o Pinheirinho não era nada feliz. Crescia, crescia e continuava ali, verde, verde-escuro. As pessoas que o viam diziam: — É uma árvore muito bonita! E, por altura do Natal, foi cortada antes dos outros. O machado cortou-a bem fundo, no tronco, e a árvore caiu para o chão com um suspiro: sentiu uma dor, e agora estava triste por ter de deixar o lar. Sabia que nunca mais iria ver os amigos, os pequenos arbustos e as flores — talvez até os pássaros.
A árvore só voltou a si quando estava a ser descarregada num quintal, juntamente com outras árvores, e ouviu um homem dizer:
— Esta é a melhor. Só queremos esta!
Depois, vieram dois criados vestidos com uniformes brilhantes e levaram o Pinheirinho para uma sala enorme e bonita. Havia, por todo o lado, quadros pendurados nas paredes e, junto do fogão, estavam enormes jarros chineses com leões.
Havia cadeiras de baloiço, sofás de seda, mesas cobertas de livros ilustrados e centenas de brin quedos por todo o lado.
O Pinheirinho foi posto dentro de um vaso grande com areia. A árvore tremeu! O que iria acontecer a seguir? Os criados e as crianças começaram a enfeitá-lo. Nos ramos, penduraram pequenos sacos feitos de papel colorido. Cada saco era enchido com guloseimas; maçãs douradas e nozes pendiam, como se tivessem nascido ali, e centenas de velinhas foram atadas aos galhos. Bonecas que pareciam pessoas de verdade pendiam de outros ramos e, mesmo no topo da árvore, estava fixada uma estrela de latão. Era extraordinário!
— Esta noite — disseram todos — esta noite, a estrela brilhará.
— Oh — disse o Pinheirinho — se ao menos já fosse noite! Oh, espero que acendam as velas brevemente. Será que as árvores vêm da floresta para me ver? E será que os pardais vão espreitar pelas janelas? Será que vou ficar aqui ornamentado para sempre?
Todas estas perguntas causaram dores de costas à árvore e as dores de costas são tão más para as árvores como as dores de cabeça para as pessoas. Por fim, as velas foram acesas. Que brilho, que esplendor! O Pinheirinho tremeu tanto que uma das velas pegou fogo a um ramo verde, mas foi rapidamente apagado.
E, naquele momento, as portas foram abertas de par em par e as crianças entraram cheias de pressa. Olharam fixamente e em silêncio para a árvore, mas apenas por um minuto. Começaram a gritar de alegria e a dançar à volta da árvore, puxando os presentes.
“O que estão a fazer?”, pensou o Pinheirinho. “O que se está a passar?”
As velas arderam até ao fim, as crianças tiraram as guloseimas da árvore e dançaram com os brinquedos novos. Já ninguém olhava para a árvore, excepto um homem idoso que se aproximou e espreitou por entre os ramos para ver se todas as nozes e maçãs tinham sido comidas.
— Uma história! Uma história! — gritavam as crianças, e levaram, para junto da árvore, um homem divertido, que se sentou mesmo debaixo dela.
— Vamos fingir que estamos no bosque verde — disse — e que a árvore consegue ouvir o conto.
E o homem divertido contou o conto de Klumpey-Dumpey, que estava sempre a cair pelas escadas abaixo e, já no fim, casou com uma princesa. O Pinheirinho ficou bastante silencioso e pensativo. Os pássaros do bosque nunca tinham contado uma história como esta. Klumpey-Dumpey sempre a cair pelas escadas abaixo e, mesmo assim, casou com uma princesa.
— Bem! Bem! — disse o Pinheirinho. — Quem sabe? Talvez eu também tenha de cair pelas escadas abaixo e casar com uma princesa! — e estava ansioso por ser de novo decorado com velas, brinquedos e frutos, na noite seguinte.
Mas, de manhã, os criados vieram tirá-lo da sala, levaram-no para o sótão e puseram-no num canto, onde não entrava a luz do dia. “O que significa isto?” pensou a árvore. “O que estou a fazer aqui? O que está a acontecer?”
Encostou-se à parede, pensou e pensou. E teve tempo suficiente, pois passaram-se dias e noites e ninguém voltou lá a subir.
A árvore parecia ter sido totalmente esquecida.
— Agora, é Inverno lá fora — disse o Pinheirinho. — A terra está dura e coberta de neve, e as pessoas não podem plantar-me. Suponho que devo ficar aqui abrigado, até que venha a Primavera. Que atenciosos! Mas que pessoas boas! Se ao menos aqui eu não estivesse tão às escuras e tão sozinho!… Era bonito lá fora, na floresta, quando a neve pousava espessa, e aquela lebre vinha saltar por cima de mim; mas, na altura, eu não gostava. Isto aqui em cima é terrivelmente solitário! Mas que pessoas boas!
De repente, dois ratinhos aproximaram-se lentamente. Cheiraram o Pinheirinho e, depois, subiram para os ramos.
— Está muito frio aqui em cima — disseram os dois ratinhos. — Também achas, árvore velha?
— Não sou velha — disse o Pinheirinho.
— De onde vens? — perguntaram os ratos. — E o que conheces?
— Conta-nos sobre o lugar mais bonito do mundo! Já estiveste lá?
— O lugar mais bonito do mundo — disse a árvore — é a floresta, onde o Sol brilha e os pássaros cantam. E, depois, contou aos ratos tudo sobre a sua juventude. Os ratinhos ouviram e disseram:
— Tantas coisas que já viste! Deves ter sido muito feliz!
— Fui — disse o Pinheirinho. — Aqueles foram, realmente, tempos de felicidade.
Mas, depois, contou-lhes sobre a Véspera de Natal, quando tinha sido enfeitado com guloseimas e velas.
— Oh! — disseram os ratinhos. — Como foste tão feliz, árvore velha!
— Não sou velha — disse a árvore. — Só saí da floresta este Inverno.
— Mas que histórias maravilhosas podes contar! — disseram os ratinhos
E o tempo passava lentamente...
Quando chegou a Primavera, as pessoas vieram remexer no sótão. Um criado levou a árvore para baixo, onde a luz do dia brilhava.
“Agora, a vida vai começar de novo!”, pensou a árvore.
Sentiu o ar fresco e os raios do Sol no pátio. O pátio estava perto de um jardim, onde as rosas estavam em flor, as árvores cheias de folhas e as andorinhas a cantar.
— Agora, tenho de viver! — disse a árvore, alegremente, e esticou os ramos. Mas, meu Deus! Estavam todos murchos e amarelos. Ficou a um canto, entre as urtigas e as ervas daninhas. A estrela de latão ainda lá estava e brilhava com a luz do Sol.
No pátio, as crianças, que no Natal tinham dançado à volta da árvore, estavam a brincar. Uma delas trepou à árvore e tirou a estrela dourada.
— Vejam o que está agarrado a este velho e feio Pinheirinho — disse a criança, e começou a pisar-lhe os ramos até partirem debaixo das botas.
E a árvore olhou para todas as flores e para o belo jardim e, depois, para ela própria, e desejou ter ficado no canto escuro do sótão. Pensou na juventude fresca na floresta, na Véspera de Natal feliz e nos ratinhos que ouviram com tanta alegria a história do Klumpey-Dumpey.
— Passado! Passado! — disse a velha árvore. — Acabou tudo. Se ao menos tivesse sido mais feliz naquela época.
E veio um criado e cortou a árvore aos pedacinhos. Estava ali um feixe enorme. Ardia resplandecente no fogão, suspirava profundamente e cada suspiro era uma pequena explosão. As crianças sentaram-se junto da lareira, olharam para ela e gritaram:
— Zás! Trás!
Mas, a cada explosão, que era um suspiro profundo, a árvore pensava num dia de Verão na floresta, ou numa noite de Inverno, quando as estrelas brilhavam.
As crianças brincaram no jardim e o mais novo usou a estrela dourada que a árvore tinha usado na sua noite mais feliz.
Agora, tudo acabara. A vida da árvore tinha terminado e o conto também.
Hans Christian Andersen
O grande livro do NatalBiografia de Sophia de Mello Breyner Andresen

Com 17 anos matriculou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas não chegou a concluir o curso de Filologia Clássica.
Das suas férias de infância, passadas entre os areais e os rochedos da praia da Granja em Vila Nova de Gaia, guardou recordações que mais tarde inspiraram a sua obra.Igualmente os belos jardins e a luz característica do litoral do Norte, estão presentes nos seus livros.
A própria escritora afirmou numa das muitas entrevistas que deu:
"... Nas minhas histórias para crianças quase tudo é escrito a partir dos locais da minha infância."
Alguns dos seus contos infantis foram escritos quando os filhos adoeceram com sarampo. Para entreter os cinco filhos, inventou essas belas histórias.
Tem uma vasta obra de poesia e contos.
Recebeu imensos prémios.
Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa o Prémio Camões, em 1999.
Em 2003 recebe o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.
Faleceu no Porto em Julho de 2004.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
A Noite de Natal
E Joana foi à cozinha. Era boa altura para falar com a Gertrudes.
- Bom Natal, Gertrudes - disse Joana.
- Bom Natal - respondeu Gertrudes.
- Gertrudes, aquilo que disseste antes do jantar é verdade?
- O que é que eu disse?
- Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes.
- Está claro que é verdade. Eu não digo fantasias: não teve presentes, nem árvore do Natal, nem peru recheado, nem rabanadas. Os pobres são pobres. Têm pobreza.
- Mas então o Natal dele como foi?
- Foi como nos outros dias.
- E como é nos outros dias?
- Uma sopa e um bocado de pão.
- Gertrudes, isso é verdade?
- Está claro que é verdade. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite.
- Boa noite - disse Joana. E saiu da cozinha.
Subiu a escada e foi para o seu quarto. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Joana olhou-os um por um. E pensava:
- Uma boneca, uma bola, uma caixa de tintas e livros. São tal e qual os presentes que eu queria. Deram-me tudo o que queria. Mas ao Manuel ninguém deu nada.
E sentada na beira da cama, ao lado dos presentes, Joana pôs-se a imaginar o frio, a escuridão e a pobreza. Pôs-se a imaginar a noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa, mas um curral de animais.
«Que frio deve lá estar!», pensava ela.
«Que escuro lá deve estar!», pensava ela.
«Que triste lá deve estar!», pensava.
E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde o Manuel dormia em cima das palhas, aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro.
-Amanhã vou-lhe dar os meus presentes - disse ela.
Depois suspirou e pensou:
«Amanhã não é a mesma coisa. Hoje é que é a Noite de Natal.»
Foi à janela, abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. Ninguém passava. O Manuel estava a dormir. Só viria na manhã seguinte. Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal.
Então ouviu, vindas da Torre da Igreja, fortes e claras, as doze pancadas da meia-noite.
«Hoje», pensou Joana, «tenho de ir hoje. Tenho de ir lá agora, esta noite. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal».
Foi ao armário, tirou um casaco e vestiu-o. Depois pegou na bola, na caixa de tintas e nos livros. Apetecia-lhe levar também a boneca, mas ele era um rapaz
e com certeza não gostava de bonecas.
Pé ante pé Joana desceu a escada. Os degraus estalaram um por um. Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu.
Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. Joana abriu-a e saiu, deixando-a ficar só fechada no trinco.
Depois atravessou o jardim. O Alex e a Chiribita ladraram.
- Sou eu, sou eu - disse Joana.
E os cães, ouvindo a sua voz, calaram-se.
Então Joana abriu a porta do jardim e saiu.
[...]
A Estrela
«Como hei-de encontrar o caminho?», perguntava ela.
E levantou a cabeça.
Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava.
E começou a seguir a estrela.
Até que penetrou no pinhal. Então num instante as sombras fizeram uma roda à sua volta.
[...]
Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos.
«Será um lobo?», pensou.
Parou para escutar. O barulho dos passos aproximava-se. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que caminhava ao seu encontro.
«Será um ladrão?», pensou.
Mas o vulto parou à sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.
- Boa noite - disse Joana.
- bom noite - disse o rei -. Como te chamas?
- Eu, Joana - disse ela.
- Eu chamo-me Melchior - disse o rei.
E perguntou:
- Onde vais sozinha a esta hora?
- Vou com a estrela - disse ela.
- Também eu - disse o rei -, também eu vou com a estrela.
E juntos seguiram através do pinhal.
E de novo Joana ouviu passos. E um vulto surgiu entre as sombras da noite.
Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras.
- Boa noite - disse ela -. Chamo-me Joana e vou com a estrela.
- Também eu - disse o rei -, também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar.
E seguiram juntos através dos pinhais.
E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros.
Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.
- Boa noite - disse ela. - O meu nome é Joana. E vamos com a estrela.
- Também eu - disse o rei - caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar.
[...]
Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.
E Joana viu o seu amigo Manuel. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo.
Shophia de Mello Breyner Andresen, A noite de Natal
( texto com supressões)
Natal em Jerusalém

A noite de Natal era igual todos os anos. Sempre a mesma ceia, sempre as mesmas coroas de azevinho penduradas nas portas, sempre as mesmas histórias. Mas as coisas tantas vezes repetidas, e as histórias tantas vezes ouvidas pareciam cada ano mais belas e mais misteriosas.
Até que certo Natal aconteceu naquela casa uma coisa que ninguém esperava. Pois terminada a ceia o Cavaleiro voltou-se para a sua família, para os seus amigos e para os seus criados, e disse:
- Temos sempre festejado e celebrado juntos a noite de Natal. E esta festa tem sido para nós cheia de paz e alegria. Mas de hoje a um ano não estarei aqui.
- Porquê? – perguntaram os outros todos com grande espanto.
- Vou partir – respondeu ele. – Vou em peregrinação à Terra Santa e quero passar o próximo Natal na gruta onde Cristo nasceu e onde rezaram os pastores, os Reis Magos e os Anjos. Também eu quero rezar ali. Partirei na próxima Primavera. De hoje a um ano estarei em Belém. Mas passado o Natal regressarei aqui e, de hoje a dois anos estaremos, se Deus quiser, reunidos de novo.
Naquele tempo as viagens eram longas, perigosas e difíceis, e ir da Dinamarca à Palestina era uma grande aventura. Quem partia poucas notícias podia mandar e, muitas vezes, não voltava. Por isso a mulher do Cavaleiro ficou aflita e inquieta com a notícia. Mas não tentou convencer o marido a ficar, pois ninguém deve impedir um peregrino de partir.
Na Primavera o Cavaleiro deixou a sua floresta e dirigiu-se para a cidade mais próxima, que era um porto de mar. Nesse porto embarcou, e, levado por bom vento que soprava do Norte para o Sul, chegou muito antes do Natal às costas da Palestina. Dali seguiu com outros peregrinos para Jerusalém.
Visitou um por um os lugares santos.
Quando chegou o dia de Natal, ao fim da tarde, o Cavaleiro dirigiu-se para a gruta de Belém. Ali rezou toda a noite. Rezou no lugar onde a Virgem, S. José, o boi, o burro, os pastores, os Reis Magos e os Anjos tinham adorado a criança acabada de nascer. E, quando na torre das Igrejas bateram as doze badaladas da meia-noite, o Cavaleiro julgou ouvir, num cântico altíssimo cantado por multidões inumeráveis, a oração dos Anjos:
«Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade».
Então desceu sobre ele uma grande paz e, chorando de alegria, beijou as pedras da gruta.
Rezou muito, nessa noite, o Cavaleiro.
Sophia de Mello Breyner Andresen, O Cavaleiro da Dinamarca


