quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A pequena vendedora de fóforos


“Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano.

No frio e na escuridão uma pobre rapariguinha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.

Quando saiu de casa trazia chinelos; mas de nada adiantavam, eram chinelos tão grandes para seus pequenos pezinhos, eram os antigos chinelos de sua mãe.

A menina perdera-os quando escorregara na estrada, onde duas carruagens passaram depressa.

Depois disso caminhou de pés nus , já vermelhos e roxos de frio.

Dentro de um velho avental carregava alguns fósforos, e um punhadinho deles na mão.

Ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e ela não ganhara sequer uma moeda.
Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!

Os flocos de neve cobriam-lhe os longos cabelos, que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.

Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano-Novo.

Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menina sentou-se; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior.

Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão.

O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, excepto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.

As suas mãozinhas estavam duras de frio.

Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!

Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.

Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha…

Que luz maravilhosa!

Com aquela chama acesa a menina imaginava que estava sentada diante de um grande fogão polido.

Como o fogo ardia! Como era confortável!

Mas a pequenina chama apagou-se, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.

Riscou um segundo fósforo.

Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela tornou-se transparente como um véu de gaze, e a menina viu a sala do outro lado. Na mesa estendia-se uma toalha branca como a neve e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar. O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair na sua direcção, com a faca e o garfo espetados no peito!

Então o fósforo apagou-se, deixando à sua frente apenas a parede áspera, húmida e fria.

Acendeu outro fósforo, e viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A pequenina estendeu a mão para os cartões, mas nisto o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela viu-as como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.

“Alguém está a morrer”, pensou a menina, pois sua avó, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela caía, uma alma subia para Deus.

Ela riscou outro fósforo na parede; ele acendeu-se e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.

- Avó! - exclamou a criança.

- Oh! leva-me contigo!

Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar!

Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!

E rapidamente acendeu todos os fósforos, pois queria reter diante da vista a sua querida avó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. A sua avó nunca lhe parecera tão grande e tão bela. Tomou a menina nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações - subindo para Deus.

Mas na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre rapariguinha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.

O sol do novo ano levantou-se sobre o pequeno cadáver.

A criança lá ficou, paralisada, um feixe inteiro de fósforos queimados

- Queria aquecer-se - diziam os passantes.

Porém, ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó e a felicidade que sentia no dia do Ano­ Novo.”

Hans Chirstian Andersen